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História no ensino médio

Apresentação feita na plataforma Prezi para o primeiro dia letivo de 2016 com as turmas do Colégio Madre Cabrini.

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Aula

1ª aula do ano: desafio!

Não é nada fácil começar a partir do zero uma aula de História.

Nesse caso, uma boa dica para tratar dos períodos anteriores ao desenvolvimento da escrita (Pré-História, o que em si já dá uma boa discussão) é apresentar aquela cena clássica do filme “2001: Um Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, em que o hominídeo descobre o uso da ferramenta.

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Reflexão

Racismo, preconceito e o ensino de História

Por Danilo Pastorelli

A historiografia mundial, mas também a nacional, é tradicionalmente eurocentrada, baseada no estudo dos grandes personagens históricos dos grupos dominantes, aqueles à frente do núcleo de decisão, no centro do poder. A história do branco dominante, do cristão, familiarizado com uma economia industrializada foi construída sob a égide da superioridade da “raça” branca em relação ao negro, considerado hora atrasado, hora excêntrico, mas sempre como uma “sub-raça”, não digna de ter a história contada, mas interpretada do ponto de vista daqueles que se consideram superiores.

Isso torna-se ainda mais grave a partir da difusão de estudos que, no século XIX, com ares de cientificismo, subsidiaram intelectualmente o neocolonialismo dos continentes africano e asiático pelas nações europeias. Sob o pretexto da “missão civilizatória”, ingleses, holandeses, franceses, espanhóis, portugueses invadiram terras, impuseram sua cultura, dizimaram populações e criaram fronteiras artificiais para facilitar sua dominação e garantir o fornecimento da matéria-prima barata para suas indústrias. A ideia de que o negro e outros grupos étnicos eram inferiores arraigou-se de maneira mais profunda e acabou por tornar-se a versão mais difundida e aceita não só no meio acadêmico, mas no cotidiano das pessoas comuns.

Chimananda Adichie fala do perigo da história única

No caso do Brasil, o ranço escravista e a herança de marginalidade perseguem ainda hoje a população de origem afrodescendente, negligenciando sua história, a contribuição da sua cultura para nossa formação, a sua responsabilidade pela construção de nossa sociedade contemporânea. Ignorou-se seu papel na formação de nossa economia, como mão-de-obra escrava que plantou, colheu, cuidou, construiu, vendeu, produziu.

A prática do etnocentrismo, que durante décadas prevaleceu sobre a produção acadêmica, ainda em nossos dias se faz presente, mesmo com o desenvolvimento de políticas de reparação e o fortalecimento do movimento negro no Brasil; embora tenhamos a impressão de que moramos em um país com menos conflito racial que os EUA, por exemplo, o preconceito velado é uma realidade que não pode ser negada.

A predominância da cultura branco-cristã, imposta pelo colonizador europeu, permanece enraizada e pode ser observada no comportamento hostil por parte da elite que se manifesta no repúdio às manifestações religiosas de cunho afrodescendente, considerando-a como sendo “primitiva” se comparada à tradição cristã, considerada mais refinada e apropriada à realidade civilizada do homem do século XXI.

Seguindo essa tendência – que permanece forte ainda dentro das universidades e bastante presente na formação dos professores das mais diversas áreas –, mesmo com a existência de legislação que exija a abordagem de temas africanos e afrodescendentes nos conteúdos trabalhados nas escolas (Lei 10.639/2003), há sério impedimento para sua concretização, seja por questões ideológicas ou, não menos grave, por falta de um preparo técnico-pedagógico e de elementos formadores para que a escola possa de fato realizá-lo.

Há inúmeros relatos de colegas nossos sobre atitudes preconceituosas e discriminatórias praticadas não somente entre os alunos, mas também com a vergonhosa participação de professores e gestores escolares. Crianças e jovens sendo vítimas de comentários jocosos e racistas são, malgrado toda a legislação e avanços de direitos dos afrodescendentes, frequentes no ambiente escolar e, o que é mais grave, cometido justamente por aqueles que deveriam ser responsáveis pela desconstrução do “mito da raça inferior”, quer por conta da força da lei, quer por convicções íntimas da igualdade entre todos da espécie humana.

A escola tem responsabilidade cabal na questão da luta contra a discriminação em todos os seus aspectos, não somente racial, como religiosa, sexual, corporal, enfim, deve ser comprometida com a formação de alunos conscientes e respeitosos, praticantes da sincera tolerância e do respeito em seu mais amplo aspecto.

Nesse sentido, é imprescindível que a direção e a coordenação, juntamente com o corpo docente, estejam conscientes do seu papel diante dessa questão que é mais cara ao Brasil, país fruto da miscigenação de tantos povos vindos de tantos lugares do mundo, no qual cada um deles colaborou de forma específica para a criação da nossa identidade como brasileiros.

Para tanto, é preciso se redimensionar o ensino e a prática da disciplina de História, desde os anos iniciais da educação infantil até o ensino médio. Aquela história contada e repetida pelos professores, focada no homem branco colonizador, imigrante, trabalhador comum, deve ser completada de forma digna e adequada com a história e a valorização da contribuição africana. Mas só é possível dar voz à história esquecida desse povo dando voz ao aluno afrodescendente, ajudando-o a construir sua própria identidade e reconhecimento como tal. Jamais negligenciar o direito de reconhecer-se como afrodescendente, como herdeiro de ancestrais que foram tão importantes para a construção de nossa nação como o branco europeu dominante.

Os obstáculos que essa legislação reparadora enfrenta são semelhantes aos problemas que diziam respeito à educação inclusiva, no início. No entanto, o tema da inclusão parece estar muito mais suscetível à mobilização nas escolas que o da discriminação racial. Desde as adaptações físicas nas escolas, passando pelos projetos de sala ao treinamento de professores, com cursos de formação específica etc., a questão da inclusão mobilizou toda a comunidade escolar a partir da década de 1990, o que, infelizmente, não encontrou similaridade com a questão africana e afro-brasileira.

Talvez por todos os motivos levantados anteriormente – o que alguns autores chamam de “mentalidade de longa duração” ­– a aplicação dessa legislação ainda encontra-se caminhando a passos muito lentos; a negação do outro e a desinformação dos profissionais da educação a respeito dos “negros” continuam sendo os maiores entraves, não apenas para a tal aplicação, mas para a perpetuação de um pensamento preconceituoso e racista.

A mobilização de toda a sociedade, unida pelo propósito de uma realidade mais justa e menos discriminatória, precisa partir não somente das iniciativas de grupos que lutam pelos direitos dos afrodescendentes, mas do conjunto, unindo a sociedade civil, a escola, o governo e a mídia. A discussão do tema deve ser incentivada por todos, inclusive por nós, professores, que temos em mãos a responsabilidade pela educação de milhões de brasileiros e a obrigação de estimular nossos alunos na busca de uma nação mais igualitária em todos os sentidos.

Por Danilo Pastorelli

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Desabafo

Viva a nova classe mérdia!

– Prófi, essa é a última aula sua que vou assistir esse ano. – disse sorridente a aluna.

– Calma, fia, ainda tem chão até o final do ano. – respondi, intrigado.

– Eu sei, prófi, mas vou pra Disney e não volto antes de dezembro.

Eu sei que “nunca antes na história desse país” a classe média viajou tanto; sei também que é direito de todo pai de família proporcionar aos filhos a viagem dos sonhos; sei que é um orgulho poder oferecer aquilo que não tiveram na infância; sei ainda mais que a classe média adora ostentar.

No entanto, foi mais um golpe baixo de um professor já violentado por essas e outras tantas.

Sem perceber, o ilustre pai – assim como tantos outros durante todo o ano letivo – acabou de ensinar a sua filha que não há problema algum em perder semanas de aulas. Que não há a menor necessidade de se seguir o planejamento e muito menos o calendário escolar entregue no início do ano.

Para que? Há tantas coisas mais interessantes que a escola para se ver! A Disney, por exemplo.

Na ânsia de consumir a tal viagem dos sonhos, pais acabam incutindo em seus filhos o desprezo pela educação, o desprezo pela regra, a valorização do “jeitinho brasileiro”. No final do ano tudo se resolve. “A gente conversa com o diretor”. Depois cobram dos filhos uma série de posturas que não aplicaram enquanto pais.

O desprestígio que a educação em nosso país vem sofrendo é em boa parte responsabilidade dos pais, que não conseguiram entender a importância que ela representa na vida dos seus filhos e da sociedade como um todo.

Sem o apoio e a participação efetiva dos pais na educação dentro e fora da escola não há  formação do cidadão consciente do seu papel social. É preciso que ambos, família e escola, tenham claras as suas responsabilidades e que uma não funciona direito se não tiver ao lado a presença da outra.

Atualmente temos em sala entre 30 e 40 alunos; sei de escolas com até 50 alunos por turma. Manter a disciplina e, muito mais importante que isso, a motivação pelas descobertas que a educação pode proporcionar, é tarefa ingrata se não pudermos contar com a ajuda dos pais.

Às vezes tenho a impressão que a ascensão social tem emburrecido uma camada importante da nossa sociedade. O acesso a bens antes não consumidos tem enebriado os chefes de família que têm valorizado o ter em detrimento do ser. Sei que a frase pode soar piegas, mas o fato é que tenho sentido claramente que as relações entre professores e alunos passaram a ser muito mais de caráter comercial – cliente e prestador de serviço – que de caráter educativo.

Ao pagar pelo serviço educação (pouco ou muito, não importa), as famílias passaram a entender que tem os mesmos direitos de quem compra uma TV ou uma camisa. E no caso da educação não é assim que funciona. Educação não é simples produto, por mais que se pague por isso.

Entendamos uma coisa: nós, professores, garantimos não apenas a transmissão do conteúdo programático das disciplinas das séries em que atuamos; temos um papel que vai além da mera prestação de serviço. Gostem ou não, tem cabido a nós a educação (formal e informal) da maior parte dos nossos alunos, por conta do peso que a profissão dos pais representa e a consequente ausência que isso gera.

Temos cuidado dos seus filhos, apresentado valores importantes como o respeito ao outro, o cumprimento das tarefas mais corriqueiras, o estímulo ao raciocínio e ao espírito crítico, buscado o desenvolvimento de cidadãos mais completos e conscientes da sua responsabilidade na formação de um mundo melhor.

Nas palavras de Rubem Alves, o bom professor é aquele que faz o aluno pensar.

Mal ou bem, é o que tenho buscado fazer com meus alunos nas aulas de História. Fazê-los refletir e questionar o tempo inteiro o mundo em que vivemos. Do nosso bairro ao continente.

Não é possível imaginar que seus filhos, senhores, são apenas nossos clientes. Estão conosco muito mais tempo do que com os senhores. Portanto, olhem-nos como aliados, como parceiros que somos e sempre seremos.

por Danilo Pastorelli