Racismo, preconceito e o ensino de História

Por Danilo Pastorelli

A historiografia mundial, mas também a nacional, é tradicionalmente eurocentrada, baseada no estudo dos grandes personagens históricos dos grupos dominantes, aqueles à frente do núcleo de decisão, no centro do poder. A história do branco dominante, do cristão, familiarizado com uma economia industrializada foi construída sob a égide da superioridade da “raça” branca em relação ao negro, considerado hora atrasado, hora excêntrico, mas sempre como uma “sub-raça”, não digna de ter a história contada, mas interpretada do ponto de vista daqueles que se consideram superiores.

Isso torna-se ainda mais grave a partir da difusão de estudos que, no século XIX, com ares de cientificismo, subsidiaram intelectualmente o neocolonialismo dos continentes africano e asiático pelas nações europeias. Sob o pretexto da “missão civilizatória”, ingleses, holandeses, franceses, espanhóis, portugueses invadiram terras, impuseram sua cultura, dizimaram populações e criaram fronteiras artificiais para facilitar sua dominação e garantir o fornecimento da matéria-prima barata para suas indústrias. A ideia de que o negro e outros grupos étnicos eram inferiores arraigou-se de maneira mais profunda e acabou por tornar-se a versão mais difundida e aceita não só no meio acadêmico, mas no cotidiano das pessoas comuns.

Chimananda Adichie fala do perigo da história única

No caso do Brasil, o ranço escravista e a herança de marginalidade perseguem ainda hoje a população de origem afrodescendente, negligenciando sua história, a contribuição da sua cultura para nossa formação, a sua responsabilidade pela construção de nossa sociedade contemporânea. Ignorou-se seu papel na formação de nossa economia, como mão-de-obra escrava que plantou, colheu, cuidou, construiu, vendeu, produziu.

A prática do etnocentrismo, que durante décadas prevaleceu sobre a produção acadêmica, ainda em nossos dias se faz presente, mesmo com o desenvolvimento de políticas de reparação e o fortalecimento do movimento negro no Brasil; embora tenhamos a impressão de que moramos em um país com menos conflito racial que os EUA, por exemplo, o preconceito velado é uma realidade que não pode ser negada.

A predominância da cultura branco-cristã, imposta pelo colonizador europeu, permanece enraizada e pode ser observada no comportamento hostil por parte da elite que se manifesta no repúdio às manifestações religiosas de cunho afrodescendente, considerando-a como sendo “primitiva” se comparada à tradição cristã, considerada mais refinada e apropriada à realidade civilizada do homem do século XXI.

Seguindo essa tendência – que permanece forte ainda dentro das universidades e bastante presente na formação dos professores das mais diversas áreas –, mesmo com a existência de legislação que exija a abordagem de temas africanos e afrodescendentes nos conteúdos trabalhados nas escolas (Lei 10.639/2003), há sério impedimento para sua concretização, seja por questões ideológicas ou, não menos grave, por falta de um preparo técnico-pedagógico e de elementos formadores para que a escola possa de fato realizá-lo.

Há inúmeros relatos de colegas nossos sobre atitudes preconceituosas e discriminatórias praticadas não somente entre os alunos, mas também com a vergonhosa participação de professores e gestores escolares. Crianças e jovens sendo vítimas de comentários jocosos e racistas são, malgrado toda a legislação e avanços de direitos dos afrodescendentes, frequentes no ambiente escolar e, o que é mais grave, cometido justamente por aqueles que deveriam ser responsáveis pela desconstrução do “mito da raça inferior”, quer por conta da força da lei, quer por convicções íntimas da igualdade entre todos da espécie humana.

A escola tem responsabilidade cabal na questão da luta contra a discriminação em todos os seus aspectos, não somente racial, como religiosa, sexual, corporal, enfim, deve ser comprometida com a formação de alunos conscientes e respeitosos, praticantes da sincera tolerância e do respeito em seu mais amplo aspecto.

Nesse sentido, é imprescindível que a direção e a coordenação, juntamente com o corpo docente, estejam conscientes do seu papel diante dessa questão que é mais cara ao Brasil, país fruto da miscigenação de tantos povos vindos de tantos lugares do mundo, no qual cada um deles colaborou de forma específica para a criação da nossa identidade como brasileiros.

Para tanto, é preciso se redimensionar o ensino e a prática da disciplina de História, desde os anos iniciais da educação infantil até o ensino médio. Aquela história contada e repetida pelos professores, focada no homem branco colonizador, imigrante, trabalhador comum, deve ser completada de forma digna e adequada com a história e a valorização da contribuição africana. Mas só é possível dar voz à história esquecida desse povo dando voz ao aluno afrodescendente, ajudando-o a construir sua própria identidade e reconhecimento como tal. Jamais negligenciar o direito de reconhecer-se como afrodescendente, como herdeiro de ancestrais que foram tão importantes para a construção de nossa nação como o branco europeu dominante.

Os obstáculos que essa legislação reparadora enfrenta são semelhantes aos problemas que diziam respeito à educação inclusiva, no início. No entanto, o tema da inclusão parece estar muito mais suscetível à mobilização nas escolas que o da discriminação racial. Desde as adaptações físicas nas escolas, passando pelos projetos de sala ao treinamento de professores, com cursos de formação específica etc., a questão da inclusão mobilizou toda a comunidade escolar a partir da década de 1990, o que, infelizmente, não encontrou similaridade com a questão africana e afro-brasileira.

Talvez por todos os motivos levantados anteriormente – o que alguns autores chamam de “mentalidade de longa duração” ­– a aplicação dessa legislação ainda encontra-se caminhando a passos muito lentos; a negação do outro e a desinformação dos profissionais da educação a respeito dos “negros” continuam sendo os maiores entraves, não apenas para a tal aplicação, mas para a perpetuação de um pensamento preconceituoso e racista.

A mobilização de toda a sociedade, unida pelo propósito de uma realidade mais justa e menos discriminatória, precisa partir não somente das iniciativas de grupos que lutam pelos direitos dos afrodescendentes, mas do conjunto, unindo a sociedade civil, a escola, o governo e a mídia. A discussão do tema deve ser incentivada por todos, inclusive por nós, professores, que temos em mãos a responsabilidade pela educação de milhões de brasileiros e a obrigação de estimular nossos alunos na busca de uma nação mais igualitária em todos os sentidos.

Por Danilo Pastorelli

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s