Viva a nova classe mérdia!

– Prófi, essa é a última aula sua que vou assistir esse ano. – disse sorridente a aluna.

– Calma, fia, ainda tem chão até o final do ano. – respondi, intrigado.

– Eu sei, prófi, mas vou pra Disney e não volto antes de dezembro.

Eu sei que “nunca antes na história desse país” a classe média viajou tanto; sei também que é direito de todo pai de família proporcionar aos filhos a viagem dos sonhos; sei que é um orgulho poder oferecer aquilo que não tiveram na infância; sei ainda mais que a classe média adora ostentar.

No entanto, foi mais um golpe baixo de um professor já violentado por essas e outras tantas.

Sem perceber, o ilustre pai – assim como tantos outros durante todo o ano letivo – acabou de ensinar a sua filha que não há problema algum em perder semanas de aulas. Que não há a menor necessidade de se seguir o planejamento e muito menos o calendário escolar entregue no início do ano.

Para que? Há tantas coisas mais interessantes que a escola para se ver! A Disney, por exemplo.

Na ânsia de consumir a tal viagem dos sonhos, pais acabam incutindo em seus filhos o desprezo pela educação, o desprezo pela regra, a valorização do “jeitinho brasileiro”. No final do ano tudo se resolve. “A gente conversa com o diretor”. Depois cobram dos filhos uma série de posturas que não aplicaram enquanto pais.

O desprestígio que a educação em nosso país vem sofrendo é em boa parte responsabilidade dos pais, que não conseguiram entender a importância que ela representa na vida dos seus filhos e da sociedade como um todo.

Sem o apoio e a participação efetiva dos pais na educação dentro e fora da escola não há  formação do cidadão consciente do seu papel social. É preciso que ambos, família e escola, tenham claras as suas responsabilidades e que uma não funciona direito se não tiver ao lado a presença da outra.

Atualmente temos em sala entre 30 e 40 alunos; sei de escolas com até 50 alunos por turma. Manter a disciplina e, muito mais importante que isso, a motivação pelas descobertas que a educação pode proporcionar, é tarefa ingrata se não pudermos contar com a ajuda dos pais.

Às vezes tenho a impressão que a ascensão social tem emburrecido uma camada importante da nossa sociedade. O acesso a bens antes não consumidos tem enebriado os chefes de família que têm valorizado o ter em detrimento do ser. Sei que a frase pode soar piegas, mas o fato é que tenho sentido claramente que as relações entre professores e alunos passaram a ser muito mais de caráter comercial – cliente e prestador de serviço – que de caráter educativo.

Ao pagar pelo serviço educação (pouco ou muito, não importa), as famílias passaram a entender que tem os mesmos direitos de quem compra uma TV ou uma camisa. E no caso da educação não é assim que funciona. Educação não é simples produto, por mais que se pague por isso.

Entendamos uma coisa: nós, professores, garantimos não apenas a transmissão do conteúdo programático das disciplinas das séries em que atuamos; temos um papel que vai além da mera prestação de serviço. Gostem ou não, tem cabido a nós a educação (formal e informal) da maior parte dos nossos alunos, por conta do peso que a profissão dos pais representa e a consequente ausência que isso gera.

Temos cuidado dos seus filhos, apresentado valores importantes como o respeito ao outro, o cumprimento das tarefas mais corriqueiras, o estímulo ao raciocínio e ao espírito crítico, buscado o desenvolvimento de cidadãos mais completos e conscientes da sua responsabilidade na formação de um mundo melhor.

Nas palavras de Rubem Alves, o bom professor é aquele que faz o aluno pensar.

Mal ou bem, é o que tenho buscado fazer com meus alunos nas aulas de História. Fazê-los refletir e questionar o tempo inteiro o mundo em que vivemos. Do nosso bairro ao continente.

Não é possível imaginar que seus filhos, senhores, são apenas nossos clientes. Estão conosco muito mais tempo do que com os senhores. Portanto, olhem-nos como aliados, como parceiros que somos e sempre seremos.

por Danilo Pastorelli

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